CONVERSAS COM EDUARDO ANUNCIAÇÃO - I

 

No jornal  Diário do Sul, de 16 de abril de 2002,  na coluna POLÍTICA, GENTE, PODER,  o jornalista Eduardo Anunciação colocou dois comentários mencionando-me e, no dia 18, retoma o foco com um novo.

 Os comentários do dia 16 foram os seguintes:

“Agenor Gasparetto, sociólogo, nascido no Rio Grande do Sul, aclimatado aqui em Itabuna, foi quem quase convence o Secretário de Educação, Adeum Sauer, também nascido no RGS a ser candidato a deputado estadual. A seguir.”

 “Agenor Gasparetto, que faz pesquisa encomendada até para o diabo, por muito pouco não jogou o PT contra o PT e quase provoca uma crise em um momento indesejável, delicado. Prevaleceu o preparo político de Everaldo Anunciação.”

 O comentário do dia 18 foi o seguinte:

“Agenor Gasparetto, um dos sábios da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), sociólogo, me contaram, estimulou fervorosamente a candidatura do secretário municipal de Educação, Adeum Sauer, a deputado estadual, na esperança de substituí-lo. Pode ser, como pode não ser. Vou ficar do lado só da especulação.”

 

 Enviei, dia 18,  ao jornalista Eduardo Anunciação dois comentários, abaixo reproduzidos:

 “Na sua coluna POLÍTICA, GENTE E PODER, dia 16, fui apontado como responsável pela quase candidatura a deputado do professor e secretário municipal Adeum Sauer. Objetivamente, a Sócio Estatística realizou em dezembro passado uma pesquisa de avaliação da perspectiva de alguns nomes do PT para deputado. O conhecimento desses dados, por si só, seria suficiente para precisar a informação veiculada.

“Contudo, o fato mais relevante não é esse. Afirma a nota que tendo nascido no Rio Grande do Sul, estou nesta terra “aclimatado”. Observo que cheguei a Itabuna, em 1984, há cerca de 18 anos, portanto, e, até ter conhecimento da nota, considerava-me itabunense e me fazia bem a idéia de morar numa cidade com vocação cosmopolita, cidade também dos meus filhos nascidos itabunenses e que foi fundada e primeiramente povoada por levas de sergipanos e outros sertanejos, todos migrantes.

 

“Considerando que não há nenhum mérito em nascer em um lugar ou em outro, assim como não há nenhum mérito em se nascer branco, negro ou amarelo, considerando  esses fatos dádivas, gratuitamente recebidas, ainda que, não raro, elevados ao status de fator de orgulho e arrogância pela estupidez humana, gostaria de perguntar: se a questão que está pressuposta na nota é de tempo, quantos anos mais é preciso para que possa dispensar o tratamento de “aclimatado”? E em não sendo uma questão de tempo, perguntaria, vale a pena semear também em Itabuna, como nas duas últimas eleições para prefeito foi semeado à mancheia por candidatos adeptos do discurso fácil, sementes que hoje florescem no Oriente Médio e ontem floresceram  nos Balcãs, para apenas mencionar casos próximos no tempo e agudos em destruição e sofrimento humano?”

 Tendo enviado esse primeiro, tomei conhecimento do novo comentário, enviando-lhe a nota abaixo:

 “Há pouco, neste final de tarde, tomei conhecimento, através de sua coluna POLÍTICA, GENTE, PODER, dia 18, que o “estímulo” dado à candidatura Adeum Sauer, para deputado, teria como pressuposto a “esperança” de ocupar o lugar do atual secretário na Secretaria de Educação.

“Seria um privilégio poder servir a Itabuna na condição de titular de qualquer secretaria. Todavia, tenho um compromisso com a professora Renée Albagli na UESC e em momento algum a palavra dada à Reitora esteve em questão e nem estará.”

 Na coluna do dia 24 de abril, Eduardo Anunciação reproduz a nota enviada, concernente a insinuação de uma hipotética intenção em ocupar o lugar do titular da Secretaria de Educação.

 Contudo, a propósito da nota que questiona o  preconceito ao forasteiro sinalizado na menção ao estado de origem e ao qualificativo “aclimatado”,  preferiu silenciar. Melhor, preferiu reafirmar sua identidade cultural a colocar em questão o problema desse preconceito que seu texto teve o mérito de colocá-lo em pauta e esse o propósito de aqui retomá-lo: 

 “Agenor Gasparetto, afinal, você é digno, então, é merecedor de uma resposta desta coluna, que tem colocado você, algumas vezes, em plena ascensão. Me dizem, Gasparetto, que o Mundo é grande. Me dizem, sei, Gasparetto, que o Brasil é grande, mas Itabuna é muito mais”.

 Creio que essa temática que inquieta e aponta para um futuro que poderá ser problemático, uma vez que encerra um preconceito existente na comunidade local, que emerge em algumas circunstâncias, como em campanhas eleitorais, por exemplo, mereceria ser encarada de frente. Creio que o jornalismo, em conjunto com a sociedade,  tem também uma função educativa. Essa foi a intenção na nota não considerada. 

Ainda que o termo “aclimatado” tenha carga pejorativa e aponta sutilmente para um preconceito,  como profissional ela não me incomoda por não pressentir como poderia ser vítima do mesmo. Todavia, como ser humano, machuca e não sinaliza positivamente, porque induz, no largo prazo, ao ódio e à intolerância, sem base alguma, exceto o preconceito. Como disse, nascer gaúcho, capixaba, baiano, potiguar, paulista ou mineiro é dádiva da natureza, é um presente de Deus, é gratuito, como a vida e as coisas mais valiosas dessa nossa curta trajetória o são. Sendo assim, não há razão para convertê-los em valores absolutos.

 Em minha opinião, um dos traços mais ricos e nobres da cidade de Itabuna é sua vocação cosmopolita. É essa marca que a semente xenófoba, ainda que muito pequena hoje, pode estar colocando a perder, no futuro. E isso o velho mundo, a velha Europa, já deu e vem dando muitas,  amargas e dolorosas lições. Não vale a pena.   

As palavras da última nota do jornalista Eduardo Anunciação, a quem considero, a ponto de manter essa discussão e responder a outras conjecturas, trouxeram-me a mente singulares versos do poeta português Fernando Pessoa:

“O Tejo é mais belo que o rio que  corre pela minha aldeia.
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia.
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia” 

 Itabuna é a aldeia de Eduardo Anunciação. Todavia, é também a aldeia, eleita, de gaúchos, paulistas, paranaenses, mineiros, piauienses, capixabas, sergipanos e tantos outros. Essa aldeia, também nossa aldeia, “é muito mais”, seguramente, sobretudo se não sucumbir a tentação de fechar suas portas, se não se apequenar, se não excluir pela simples razão de aqui não ter nascido.

 Agenor Gasparetto
Itabuna, 26 de abril de 2002