O certo e o duvidoso

 

Entre o populismo dos atuais governantes do chamado eixo Itabuna-Ilhéus, fulcro econômico e social da região cacaueira, e o populismo de José de Almeida Alcântara (Itabuna) e Herval Soledade (Ilhéus)  vão-se muitos anos. Mas naqueles tempos, principalmente em Itabuna, com o “anti-popular” José Soares Pinheiro, já se ouviam libelos contra a monocultura do cacau e elegia-se a industrialização como alternativa econômica mais segura. A idéia não prosperou entre nós,  porque o cacau era altamente rentável e, além disso,  os defensores da indústria não chegaram ao poder, assim deixando de obter a moeda indispensável para o projeto.

Podemos contar deste modo os primórdios de nossa crise, da mesma forma que podemos fazê-lo de maneira inversa: dizer que os portadores daquela incipiente bandeira da industrialização foram suficientemente inteligentes para  perceber o preço exigido pelo processo industrial, muito alto e sem garantia de retorno social que o justificasse. É uma questão de escolha ideológica, considerando que os fatos históricos não estão escritos em nenhum lugar, salvo, provavelmente, nos jornais da época, com suas distorções normais, também ideológicas.

Nossos últimos governantes, ACM à frente e os outros a segui-lo em comportada fila indiana, sem direito a pensar, escolheram a indústria como salvação da lavoura regional. Ofereceram o céu às multinacionais, sonharam com os computadores, tênis, meias e bolas de futebol made in região cacaueira,  esqueceram-se de que este é um pedaço do Brasil eminentemente agrícola e, mais do que agrícola,  cacaueiro, por escolha da natureza. O que há por trás disso, em termos de comissões em particular e falcatruas em geral, não foi ainda devidamente explicado. Não se acusa aqui nenhum prefeito de ter-se beneficiado pessoal ou financeiramente dessa mais falada do que realizada industrialização, disso não há provas, sequer suspeitas. O buraco é mais em cima. 

 No frenesi da industrialização, 
deram-se vantagens sem exigir
qualidade do emprego oferecido
e sem avaliar o nível de retorno

 Os dirigentes municipais, sejam de entidades ou empresas (ressalvadas poucas exceções), seriam culpados, no máximo, de não raciocinar, de permitir que os “de cima”  pensem por eles. Talvez o tribunal da história os acuse de ajudar, com passividade e inércia, a sedimentar a dependência da região aos mandatários estaduais. Seriam contribuintes, nem sempre como inocentes úteis,  da teoria de que chegamos ao fim do ciclo do cacau, que  teríamos atingido o fundo do poço, local de retorno praticamente impossível. Daí, pregam a migração dos nossos já magros recursos públicos para os cofres das indústrias que aqui aportam pisando em tapete vermelho, com o compromisso de que elas nos darão a felicidade eterna.

Mudos, assistimos a uma repetição de lugares-comuns, sendo o mais freqüente a criação de empregos proporcionada pela industrialização, compensadora de perdões

 fiscais e outras vantagens que o Estado e os municípios, em nosso nome, ofertam aos neo-salvadores da Pátria. Criar empregos é objetivo nobre, socialmente justo e inquestionável, pois é primário que sem emprego pleno não há salvação possível, rompe-se a sustentação de todos os outros programas, seja a educação, seja o combate à violência. O desemprego fecha os acessos à dignidade do homem, isto não se questiona. O que se questiona é que, no frenesi da industrialização, deram-se vantagens sem exigir qualidade do emprego oferecido e sem avaliar o nível de retorno do investimento.

Já que não há informação oficial sobre o número de desempregados da lavoura, fiquemos com os 250 mil habitualmente mencionados – o que daria algo parecido com um milhão de pessoas, quando somarmos os dependentes desses desempregados. A recuperação da lavoura geraria uma fortuna, em forma de salários desses 250 mil, sobre cujos reflexos positivos não nos aventuramos a conjeturar.

 Investimentos na capacidade
instalada da cacauicultura
causariam impacto positivo
a curto, médio e longo prazos

 E igual reflexo chegaria aos balcões das lojas, aos diversos escritórios de serviços, às feiras, bares e...  redações. A que nos leva este raciocínio? Ao absurdo que é abandonar-se a solução duradoura de recuperar a lavoura cacaueira, em favor de um processo econômico de resposta menos clara, menos rápida e sem certeza de permanência. Investimentos na capacidade instalada da cacauicultura causariam a consolidação dos empregos (que não sejam 250 mil, que sejam “apenas” 100 mil), com impacto econômico positivo a curto, médio e longo prazos; na indústria, eles são transitórios, pois cessarão na primeira crise de mercado ou mudarão de endereço, tão logo se esgote o prazo do perdão fiscal; na cacauicultura, esses empregos vão contribuir para “desinchar” as áreas urbanas, enquanto a indústria, com seu apelo de marketing feito pelos governantes, tende a obter o efeito contrário; o investimento na agricultura gera resultados que ficam entre nós, enquanto os da industrialização, transformados em dólares, são remetidos para outras plagas; se a industrialização “suga” impostos municipais e estaduais, a cacauicultura contribui com o tesouro público... Estes são alguns pontos levantados para discussão, sabendo que longe estamos de esgotar o elenco de prós e contra.

Quem imaginar que levantamos alguma tese contra a industrialização, vai provar que não entendeu nada. Está fora de discussão que criar indústrias é importante no processo de geração do bolo da riqueza social, um esforço absolutamente válido para reduzir o fosso entre os ricos, remediados e miseráveis. O que se pretende discutir é a forma como este processo vem sendo implantado, em detrimento de nossa prioridade social e econômica, a cacauicultura. Imagina-se que ainda seja tempo de inverter as prioridades dos (poucos) investimentos públicos na região.