O país de “almas tortuosas”

Agenor Gasparetto*

 

Mal acabara de remeter o texto para publicação, assistindo o Jornal das Dez, da Globo News, 3 de setembro, vi-me surpreendido com o retrocesso do presidente Fernando Henrique quanto à sua última frase de efeito.  Não era mais “Exportar ou morrer”, mas “Exportar para viver”.  Seguramente, esse retrocesso foi um avanço. A frase ficou mais humana e menos trágica, ou melhor, ficou mais “redonda”.

 Todavia, na inauguração de uma barragem no interior do Ceará, no mesmo dia, cunhou outra expressão: “almas tortuosas”, dirigida aos que, estando cegos, não compreendem o alcance das ações de seu governo, que não aparecem, mas que ficarão e mudarão esse país. As “almas tortuosas”, as que “não têm o que fazer”, não têm nada a ver com as “almas penadas”, nem com os “vagabundos”, não importando sua natureza.  É possível que, sem o sabermos, sejamos uma nação de “almas tortuosas”, pelo menos é o que as pesquisas sugerem.

 A expressão “almas tortuosas” parece realmente um achado. Ainda que remeta às “penadas”, porque são merecedoras da compaixão do presidente, parecem radicalmente distintas. Há um divisor entre elas: umas vivas e do aquém, as outras, do além; as primeiras vivem errantes por sua natureza, digamos, tortuosa; as últimas, erram penantes. Estariam as “almas tortuosas”  prenunciando as “penadas”?   

 Como o presidente mudou a sua frase de efeito, penso que também deva acompanhá-lo, fazendo alguns acréscimos ao texto “Independência ou morte” e “Exportar ou morrer”?, agregando outras expressões que marcaram época.

 O general João Batista Figueiredo (1979-85), no final de seu governo, disse categórico: “Só peço que me esqueçam”. Contudo, não pode ser olvidado quem disse que se ganhasse um Salário Mínimo “daria um tiro de revólver na cabeça”. Também gerou perplexidade a franqueza do seu “Prefiro o cheiro de meus cavalos ao cheiro do povo”. No entanto, no fundo, talvez “o diabo não fosse tão feio”.  Na mobilização das “diretas-já”, por exemplo, quando foi informado de que haveria um milhão de pessoas na praça clamando pelas eleições diretas teria dito que seria a pessoa número “hum milhão e um”. Acredito que não fossem as “forças ocultas” de Jânio Quadros que, de tempos em tempos, parecem fazer aparições, como “almas do outro mundo”, mesmo sem serem “almas penadas”,  nem gasparzinhos, uma outra imagem seria revelada. Figueiredo foi o presidente da  transição  do governo militar para o civil, sucedido por José Sarney, face a inesperada morte, às vésperas de assumir a presidência, de Tancredo Neves. Retornando ao “Exportar é o que importa”, no período após o Golpe Militar de 1964, nessa mesma linha,  foi adotada a expressão “Exportar é a solução”.  “Exportar”, portanto, independentemente das razões, que parecem mudar ao sabor das circunstâncias, é uma condição permanente deste país.

 Algumas frases parecem ter tantos praticantes e estarem tão popularizadas que seria uma injustiça atribuir-lhes uma autoria ou individualizá-las. Entre essas está o “Rouba, mas faz”, ainda que não haja muita clareza e discernimento com relação a sua segunda parte, nem qualitativa e nem quantitativamente.

  José Sarney,  com seu sonoro “Brasileiras e brasileiros” trouxe à memória os ecos graves e longínquos do “Trabalhadores do Brasil”, de Getúlio Vargas. Quando o Plano Cruzado, que elevou sua popularidade às nuvens, começou a “fazer água”, e aquela despencar feito granizo,  e o “boi gordo” escancarou de vez a porteira para dar passagem triunfal  à boiada do ágio e ao dragão da inflação, José Sarney cunhou a expressão “Tem que dar certo”. Essa revelou poder equivalente a de um técnico de futebol prestigiado, num time afirmado como perdedor. O colapso do governo Sarney inviabilizou a candidatura Ulisses Guimarães, do então poderoso PMDB, abrindo espaço para alguém que tivesse nascido “com aquilo roxo” e capaz de collorir o Brasil, como na propaganda na televisão, em que, como num toque mágico, as cenas pálidas em preto e branco tinham suas cores avivadas. Um show de tecnologia.

 O ex-ministro do Trabalho de Collor, Rogério Magri, já esquecido, deixou frases ou palavras que ainda ecoam, destacando-se: “Cachorro também é gente” e “Imexível”, que mexeu com a Língua Portuguesa, e acabou deixando-a um pouquinho mais rica.

  Uma frase de efeito muito forte, talvez inigualável como marketing político,  foi a do governo de Juscelino Kubitschek, no final dos anos 50: “50 anos em 5”.  Como definidoras das pretensões de governos, há também as frases “Brasil em ação” e a ainda vigente “Avança Brasil”, embalada em out-doors nas cores da bandeira, ocupando, na mesma, o lugar de “Ordem e Progresso”.

 Às vezes, penso nessa estória de “luz no fim do túnel”, ou do “chegar ao fundo do poço”. Desconfio que esse túnel não tenha fim, assim como esse poço não tenha fundo. Até me espanta que ainda não tenham encontrado o ”bode”. Não qualquer um, mas o “expiatório”, aquele que sinaliza que, estando o fim iminente, é preciso um sacrifício. O recurso ao “bode expiatório” é sintomático de algum desespero tomando conta e o imperativo de uma saída emergencial. Nesse sentido, se esse “bode” ainda não “deu o ar se sua graça”, alguma coisa me diz que, se real,  o túnel é mais longo, e o poço, mais profundo. Seriam as “almas tortuosas” um “bode” difuso, anônimo? Creio que não. Todavia, parece importante ficar atento ao “bode”. Esse pode “tardar, mas não falha”.

 Na agricultura ficou famosa a frase “Plante que o João garante”, no caso, João Batista de Figueiredo. E com isso chegamos à nossa região, em que frases de efeito também são muitas e algumas palavras são mais poderosas que a própria assinatura de seus donos: “Cuma?”, diria alguém menos familiar à região.  E é isso mesmo.

 Nesta região, de Ilhéus e Itabuna, na Região Cacaueira, com fortes marcas rurais, ainda ecoa o “Só cresce quem renova”. Todavia, na segunda metade dos anos 70 e primeira dos anos 80, o produtor implantou novos cacauais e foi arredio à badalada campanha da renovação. Preferiu crescer expandindo área. Hoje, após a avassaladora vassourada da Bruxa Crinipelis  Perniciosa (eis aí um nome que parece combinar com “almas tortuosas”), mesmo sem nenhuma campanha publicitária de renovação, sem nenhuma frase de efeito, produtores estão reencontrando e reconstruindo a confiança sobretudo em si mesmos e no futuro da lavoura, graças à enxertia ou à clonagem. Caso o crédito anunciado recentemente pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso na sua vinda à Ceplac, no último 24 de agosto, de fato chegue aos produtores e seja efetivamente aplicado na lavoura, haverá um ressurgimento dessa lavoura e uma renovação da fé no cacaueiro e nos seus frutos dourados. E o que já foi o “melhor negócio do mundo”  olhos fará novamente brilhar.

 Assim como “Nem só de pão vive o homem”, nem sempre frases de efeito têm poder de transformação da realidade ou são necessárias.  Para finalizar, não lembro qual “alma tortuosa” disse que “Ou o Brasil acaba com as saúvas ou as saúvas acabam com o Brasil”. Penso que seja uma “alma tortuosa”, porque se não fosse não poderia ter dito essa barbaridade e se disse não o sendo, seria inacreditável que não estivesse, hoje, engrossando  a legião das “almas penadas”.

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*Agenor Gasparetto, Sociólogo, professor da UESC.

Itabuna, 6 de setembro de 2001.