EFEITO GRAMPOS DA BAHIA, COTAS PARA NEGROS E  PARA OS  “FILHOS DA REGIÃO”  PARA O INGRESSO NA UNIVERSIDADE

 

Em pesquisa de opinião por amostragem probabilística, estratificada por sexo, faixas de idade  e regiões da cidade, realizada em Itabuna, de 14 a 16 de março último, foram ouvidos 1065 cidadãos com mais de 16 anos.

 Dentre as questões abordadas, destacam-se:

 O EFEITO DOS GRAMPOS NO PRESTÍGIO POLÍTICO-ELEITORAL DE ACM

 A propósito do efeito dos  grampos, a primeira pergunta formulada foi se na última eleição, em outubro passado, tinha votado em ACM para senador.

 Os itabunenses que tinham votado no senador ACM somavam 54% e os que não tinham votado, 42,7%. Os que não lembravam somavam 3,2%.

 A segunda questão formulada foi se hoje votaria de novo no senador.

 Os itabunenses que continuaram votando no senador somariam 44,9% e os que não votariam somariam 46,1%. Outros 9,1% não opinaram.

 Portanto, em meados de março de 2003, os grampos ilegais da Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia, na gestão anterior, afetariam pouco o prestígio eleitoral do senador Antônio Carlos Magalhães, em Itabuna. Todavia, o somatório dos que não votariam seria levemente superior em relação aos que não votariam. Hoje, ACM teria perdido cerca de 9% das intenções de voto que possuía antes da revelação do referido caso.

 E perguntando sobre quem seria o substituto do senador ACM caso ele renunciasse em razão do episódio dos grampos, 95,4% disseram não saber quem será o seu suplente. 3,9% disseram saber e 0,7% não opinaram.

 Dentre os que disseram saber, 13 disseram ACM Júnior, 8 disseram ACM Neto, 5 disseram o filho, mas sem nominar, 3 disseram o neto, também sem nominar. 9 apontaram outros nomes, sendo 4 o atual governador Paulo Souto, 3 o senador César Borges, 1 Paulo Magalhães e 1, Waldir Pires, oponente principal de ACM, em eleições passadas.

 COTAS PARA NEGROS E ESTUDANTES (POBRES) DE ESCOLA PÚBLICA

 Uma Segunda questão perguntava sobre o problema da reserva de vagas para negros e estudantes de escolas públicas no vestibular da UERJ, neste ano, em que alunos brancos perderam vaga para negros, mesmo tendo melhor desempenho nas provas desse concurso. A questão formulada foi a seguinte:

“No Vestibular da UERJ foram reservadas cotas para estudantes negros e de escolas públicas. Com essas cotas, estudantes com boas notas  perderam a vaga para outros. Na sua opinião, está certa essa Universidade em tentar compensar estudantes negros e pobres, facilitando sua entrada na Universidade através da reserva de cotas?”

 Os resultados revelaram que 45,3% dos itabunenses aprovam essas cotas contra 44,8% que não aprovam essa política de estabelecimento de cotas para ingresso na universidade pública. Outros 9,8% não opinaram ou não souberam responder.

 Portanto, a política adotada pela UERJ, no Rio de Janeiro, dividiu os itabunenses em praticamente duas metades.

COTAS PARA OS “FILHOS DA REGIÃO”

  A pesquisa da Sócio Estatística refez essa mesma questão, mas em vez dos negros e pobres oriundos de escola pública colocou os “filhos da região”,  focando o caso do vestibular na UESC, em que parte expressiva das vagas, sobretudo nos cursos mais valorizados e concorridos, são preenchidas por estudantes de outras regiões do estado e mesmo de outros estados.

A questão formulada foi a seguinte:

“Nos últimos anos, muitos estudantes de fora da região, inclusive de outros estados, passaram ocupando muitas vagas, no Vestibular da UESC, sobretudo nos cursos mais concorridos.  Na sua opinião, a UESC deve adotar uma política de reserva de vagas para os filhos da região?”  

 Os resultados revelaram que 63,9% dos itabunenses aprovam essas cotas contra 26,7% que não aprovam essa política de estabelecimento de cotas para ingresso na universidade pública, baseada na procedência geográfica. Outros 9,4% não opinaram ou não souberam responder.

 Portanto, uma política de reserva geográfica de vagas no vestibular da UESC seria mais aceita do que uma política equivalente, mas que favorecesse negros e estudantes pobres oriundos de escola pública. Aqui, a proporção de aprovação dessa política de reserva de vagas, que não tem abrigo na lei,  alcança mais de dois terços contra pouco mais de um quarto dos que não a aprovariam.

 Em se tratando de uma política de favorecimento para ingresso na universidade pública, via vestibular,  os resultados revelam que o apelo geográfico, no caso, cotas de vagas para os  “filhos da região”, é mais forte que o apelo racial, em favor dos negros, e em favor dos estudantes oriundos de escolas públicas, salvo exceções, pobres e, no caso de Itabuna, em grande maioria com ascendência afro, ainda que não exclusiva.

 Agenor Gasparetto

Itabuna, 21 de março de 2003