CARTA ABERTA AO FMI

( ou uma distante lição do cacau de Tosta Filho para o Brasil e o FMI de hoje)

 

O Brasil vem pagando e vai continuar honrando os seus compromissos financeiros internacionais, ainda que esses pagamentos signifiquem um alto custo para a sua população. A manutenção desse compromisso é fonte de tranqüilidade para os nossos credores, de preocupação para os nossos governantes e de sofrimento para grande parte dos brasileiros.

Na semana passada, o Federal Reserve (FED) dos Estados Unidos reduziu sua taxa de juros para 1,25% ao ano enquanto o Banco Central Europeu manteve a taxa em 3,25%. O Banco Central do Brasil, em sua última reunião, elevou a taxa de juros de 18% para 21%. E o país vem rolando sua dívida vencida com altas taxas, resultando em ganhos fantásticos para os credores, muito além do que poderiam render quaisquer atividades do mundo da produção. É essa espiral de endividamento que vem corroendo a estabilidade econômica e social de nosso país, bem como investe contra a sua governabilidade. Nesse sentido, o FMI está contribuindo, na prática, para a ruína econômica e social de países e de sociedades que estão em situação semelhante à brasileira.

  A principal explicação para a “exuberância irracional” das taxas de juros cobradas à dívida brasileira situa-se no risco presumivelmente alto de aplicar dinheiro no país. No entanto, o Brasil paga em meses o que mercados de países desenvolvidos pagariam em  anos. O paradoxal é que,  atuando o FMI como uma salvaguarda dos credores, a manutenção dessas taxas passaria a ser explicável pela “ganância infecciosa” e que esse Fundo se constitui no grande avalizador.   

Antes de tirarmos conclusões apressadas sobre a necessidade do Mundo contar com organismos capazes de darem efetiva sustentação à estabilidade, ao desenvolvimento e à governabilidade dos países e sociedades, parece elucidativa uma volta ao tempo e a um lugar específico que pode, por analogia, apontar para caminhos alternativos. Voltemos, pois, ao início dos anos de 1930, na região polarizada pelas cidades de Ilhéus e Itabuna, Litoral Sul da Bahia. Nessa região da Mata Atlântica, de sol quente, solo rico e muita chuva, sertanejos humildes ralearam a floresta e cultivaram sob sua generosa sombra o cacaueiro, para o deleite dos apreciadores do bom chocolate, em sua maioria habitantes das regiões de clima mais frio.

Para essa incursão histórica serão tomados conceitos do economista José Ignácio Tosta Filho, mentor e primeiro dirigente do Instituto de Cacau da Bahia, fundado em 1931, e, também, da Comissão Executiva do Plano de Recuperação da Lavoura Cacaueira, fundada em 1957, instituições criadas em primeiro plano para a solução do problema de endividamento dos produtores de cacau, o mais conservacionista dos cultivos. Tosta Filho era um homem de visão, prático, de pensamento liberal. Algumas frases extraídas de seus textos confirmam-no: “produzir e prosperar não constituem privilégio de ninguém”, ou “sou um dos que crêem no estímulo insubstituível da concorrência e da competição, dentro de determinados limites e restrições, que evitem desperdícios e duplicação de esforços, como garantia de eficiência e de progresso”, ou, ainda, “ninguém negocia pelos belos olhos alheios”

            Segundo Tosta Filho, foram necessários alguns anos para que os bravos fazedores de lavouras de cacau, embrenhados na mata, se dessem conta que o sonho embalado pelos frutos dourados já não mais existia. Já os que estavam produzindo o precioso fruto sentiram o peso da desestruturação do mercado e dos baixos preços provocados pela crise decorrente da quebra da Bolsa de Nova Iorque. Nesses momentos de crise e de apertura, os produtores se entregavam às lamentações e ao desespero, recorrendo ao remédio que “consistia em sacar continuamente contra o futuro, tomando-se dinheiro a juros onzenários, vendendo-se  o cacau antecipadamente por preços ínfimos, penhorando-se por vezes a colheita de muitas safras futuras, entregando-se de pés e mãos atadas a comerciantes que eram, ao mesmo tempo, compradores de cacau, vendedores de mercadorias, banqueiros, agências de informação, etc”. Obviamente, “esse regime não poderia durar eternamente. Afinal, veio o crack de 1930/31, que se seguiu ao período de preços mirabolantes de 1926/28”. E, no início da década de 1930, “a situação econômica refletia-se perigosamente no ambiente social e que grupos de lavradores exaltados ameaçavam queimar, por atacado, as suas propriedades de preferência a entregá-las aos credores implacáveis cujas execuções montavam às centenas e invadiam a casa dos milhares”. Naquele momento, o que estava em jogo “não eram apenas o bem-estar e o patrimônio de lavradores endividados mas a própria estabilidade econômica da lavoura”[1].

Para esse economista, um dos resultados mais trágicos das crises cíclicas nos preços do cacau era a “devastação que eles produzem no seio da classe mais modesta dos lavradores. Após o estrondo e o turbilhar de cada um desses vendavais, centenas de pequenos lavradores desaparecem do rol de produtores independentes, absorvidos por um vizinho de maior  capacidade de resistência ou algum grande lavrador – cheio de avidez por terra alheia – dos quais, não raro, as vítimas são tributárias economicamente”[2].

Na sua praticidade, Tosta Filho recomendava políticas enérgicas de duas ordens: primeira, medidas de emergência, visando ao alívio imediato da situação de crédito e,  segunda, medidas construtivas de caráter permanente, visando à modificação dos fatores internos de ordem específica[3]... para garantia da futura estabilidade e progresso da grande lavoura[4]. E, com isto, é possível voltar ao presente, aclarando-o, em que pese a especificidade da situação histórica reconstituída, de um lado, e a complexidade da situação atual, de outro.

Como solução de emergência, foi proposto no início dos anos 30, depois repetido outras vezes, como no final dos anos 50 e início dos anos 60, “o resgate e unificação de dívidas a curto prazo, ou já vencidas, a juros onzenários ou pesados, pelo crédito rural hipotecário, a longo prazo, e juros módicos, precedidas essas operações de crédito da imediata suspensão de execuções e de demonstrações evidentes do empenho do Governo de solucionar, em definitivo, a questão”[5].

            Hoje, o Brasil não é o produtor de cacau pressionado pelas dívidas contraídas do início dos anos 30 do século passado. Contudo, é elevadíssimo o peso de seu endividamento, que se situa nos limites de sua capacidade física. Torna-se cada vez mais difícil suportar o peso do endividamento, agigantado pelos juros exorbitantes, sem comprometer a estabilidade não apenas econômica e social, mas também democrática. E esse é o ponto nevrálgico da crítica ao FMI aqui argumentada. Em nome do curtíssimo e curto prazos, esse organismo contribui, dessa forma, para a desestabilização e para a ingovernabilidade de países e de sociedades, a menos que se acredite numa progressão indefinida no tempo do processo de endividamento, impulsionado por taxas marcadas pela exuberância infecciosa acima referidas, em que o Brasil é apenas e não mais do que um exemplo, ainda que especial pela sua grande capacidade de sobrevivência e de pagamento.

            As políticas respaldadas pelo FMI parecem insuficientes aos propósitos proclamados pelo próprio Fundo a longo prazo por não discernirem entre o que é emergencial e o que não o é. A rolagem da dívida nos moldes praticados não é uma solução e o alívio que proporciona é passageiro, para voltar com maior intensidade no vencimento imediatamente seguinte e nos subseqüentes, num infernal processo de crescente estrangulamento financeiro, dado que o montante devido, em que pese os pagamentos efetuados, não cessa  de se avolumar.

As recomendações propostas pelo Fundo, salvo as de cunho ideológico, parecem boas e desejáveis, como a que aponta para a responsabilidade fiscal,  e se tivessem alguma viabilidade prática, (sua aplicação em várias partes do mundo, infelizmente, aponta, via de regra, em sentido contrário), contribuiriam para a estabilidade das sociedades e para a governabilidade. E esses dois elementos são pressupostos para novos investimentos, para o crescimento econômico e para o desenvolvimento.

Sendo assim, parece ilusório crer na eficácia das políticas recomendadas pelo Fundo enquanto não se discernir entre o emergencial, de um lado, e o estrutural e permanente, de outro. No caso do Brasil e dos países pobres do mundo, o nó é o brutal endividamento, agigantado sobretudo pelas exorbitantes taxas cobradas em nome de um risco potencial que os credores correm aplicando aqui seu dinheiro. Enquanto esse for sendo pago a dívida funciona como uma mina de ouro se comparada com o retorno desses mesmos recursos se aplicados em seus próprios países de origem ou mesmo no mundo da produção. É como se houvesse uma aposta implícita de colapso e a regra fosse prosseguir cobrando juros, rolando o que não for possível cobrar indefinidamente e quando o colapso ocorrer, os capitais aplicados já terão sido remunerados suficientemente. E nesse círculo vicioso o país e a sociedade brasileira vão sobrevivendo como podem. 

Isto posto, a solução encontrada para os produtores de cacau endividados, no início dos anos 30 do século passado, no Sul da Bahia, lança um facho que pode ser a luz na saída do túnel.  Caso não haja interesse e vontade política para desatar o nó do endividamento, que estrangula os países pobres, o colapso, com todas as suas implicações perversas, tende a parecer uma questão de tempo, salvo conjunturas muito e longamente favoráveis e grande riqueza de recursos naturais e humanos, que parece ser o caso do Brasil. O triste é que o Fundo é o seu avalizador maior.

Objetivamente, ninguém melhor do que o Fundo Monetário Internacional  para iniciar um novo círculo, desta vez virtuoso, de desenvolvimento e de paz. Ele começa pelo desarme do referido nó, que, por sua vez, parece pressupor uma operação de composição de todas as dívidas, que seriam centralizadas e unificadas, assumidas pelo próprio Fundo e instituições que possam lhe dar sustentação. Todos os credores seriam pagos pelo próprio Fundo até liquidar todos os compromissos. Como o Fundo não ofereceria riscos às aplicações, os juros que esse teria que pagar aos credores se reduziriam a patamares razoáveis, compatíveis com a realidade do mercado, sem implicar num sacrifício demasiadamente  excessivo às populações dos países hoje devedores. Ao Brasil e aos países pobres, o Fundo cobraria a dívida centralizada e unificada.

Com base no exposto acima, o Brasil passaria a pagar ao seu novo e único credor taxas compatíveis com a realidade. Se o Brasil vem pagando, ainda que a um custo excessivo, taxas marcadas pela exuberância infecciosa, saberá honrar até o último centavo devido ao seu novo credor, que cobrará taxas compatíveis com as atividades econômicas do mundo real. O desarme do nó, rompendo com a lógica da espiral do endividamento, abriria caminho para o início de um novo processo, desta vez virtuoso, com crescimento. Em decorrência, no caso brasileiro, a União, por sua vez, poderia reproduzir esse mesmo processo internamente com Estados e Municípios. Criadas essas condições de base, as políticas pregadas hoje pelo Fundo passariam a ter a marca da exeqüibilidade e contribuiriam para realizar os propósitos maiores da comunidade humana: paz, democracia e prosperidade para todos os povos do planeta.

Agenor Gasparetto
Sociólogo

Itabuna, 12 de novembro de 2002


[1] Tosta Filho, José Ignácio. Estabelecendo a verdade sobre o cacau brasileiro. A Gráfica. Bahia. 1936. p. 141-2.  156p.

[2] Tosta Filho, José Ignácio. Plano de Ação Econômica para o Estado da Bahia. (Seção B do Vol. II, separata. Instituto de Cacau da Bahia. Bahia. 1948. p.B-40)

[3] Por fatores de ordem interna específica, Tosta Filho fazia referência ao transporte, crédito, organização da distribuição, técnicas de produção, sistema fiscal entre outros.

[4] Tosta Filho, José Ignácio. Estabelecendo a verdade sobre o cacau brasileiro. A Gráfica. Bahia. 1936. p. 142.  156p.

[5] Idem, p. 143.