Algumas ponderações sobre eleições

 Por Agenor Gasparetto [1]

 Somos todos senhores das nossas verdades. Sobra-nos, aos nossos olhos e aos nossos julgamentos, bom senso. Não raro, por outro lado, parece-nos ele escasso nos outros e nas suas decisões, particularmente eleitorais neste Brasil em que é muito comum se ouvir “que não sabe votar”, que é “analfabeto político” e assim por diante. Ademais, sobra complacência (como somos imparciais!) para os nossos aliados e simpatizantes e, no quadro em branco dos adversários, falhas e deméritos se agigantam e, por vezes, nos cegam (como somos generosos!). Filtramos ao nosso bel prazer as informações, truncadas e poucas às vezes, que nos chegam, a verdade vem dos nossos e as mentiras e falsidades, dos outros. Democracia é boa, desde que nos corrobore.

 Lula vai ganhar. Lula vai perder. Heloisa Helena vai passar Alckmim e disputar o Segundo Turno. Alckmim está perdendo aderência e terreno. Está afundando. Não, vai reagir quando a campanha pela televisão iniciar. Afinal, a campanha mal começou. Cristóvão Buarque tem o melhor discurso. Não consegue romper a quase-polarização entre Lula e Alckmim como Heloisa Helena. No entanto, em toda eleição, há sempre bolhas e quem sabe não tenha a sua e quem sabe não seja apenas bolha e quem sabe se com todos contra um não haverá Segundo Turno para Presidente. Para Buarque, maldito é o voto útil. O primeiro indicador de analfabetismo político é revelado pela expressão votar para “não perder o voto”. Falta, para não ser muito exigente, não educação, mas apenas mais instrução cidadã e também escolar a esses. 

 Estando a menos de dois meses da eleição, resultados de pesquisas nacionais apontam Lula como vencedor, já no Primeiro Turno. Como explicar isto se teve tantos problemas, perdeu parte de sua equipe envolvida em processos de corrupção. Diante disso, é preciso ter em mente como o eleitor decide seu voto para presidente, para governador, para prefeito. É preciso ter em mente, também, as regras do jogo eleitoral.  

 Resumindo, a decisão do eleitor é tomada por comparação. Não se dá do vazio. Nesta comparação, neste momento, Lula está levando vantagem. Aqui, pode não passar de presunção nossa considerar equívoco decisão de brasileiros neste vasto país. Cada um em seu canto ouve, vê, discute, compara e vai decidindo, apalpando o bolso e sentindo o coração.  Nesta comparação, o eleitor tende a ser conservador. Os que já foram candidatos a cargos majoritários, conscientes de ser portadores de propostas mais consistentes, se surpreendem pela decisão do eleitor, que parece mais propenso a segurar “o passarinho que tem na mão em vez de apanhar dois que estão voando”, relevando a proposta teoricamente melhor.

 Neste ponto, parecem ainda elucidativas para os nossos dias, as palavras, sábias, do pensador e político francês, do Século XIX, Aléxis de Tocqueville:

“Quando me proponho a procurar, em diferentes épocas, nos diferentes povos, a causa eficiente que provocou a ruína das classes que governaram, distingo com clareza um certo acontecimento, um certo homem, uma certa causa acidental ou superficial, mas, acreditem, o motivo real, a causa mais eficiente que leva os homens a perderem o poder, é o fato de se tornarem indignos de exercê-lo” (político e pensador francês Alexis de Tocqueville, 1848).

 O outro ponto situa-se na questão da reeleição, introduzida no cenário brasileiro pela vaidade do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Obcecado pelo poder, não mediu esforços para aprovar a reeleição.  E ela está valendo.

 Analisamos, em dois trabalhos[2], essa questão tomando como referência a eleição municipal de 1996, na Bahia, a primeira eleição com reeleição. Dentre os resultados principais, destacamos que, em si, a reeleição não seria ruim para a sociedade, porque parece mais fácil um prefeito fazer sucessor sendo mal avaliado do que se reeleger. Havia, porém, um problema: como separar campanha e gestão do ocupante do poder ?  E isto por uma razão principal, o cenário de fundo da decisão do eleitor passa pela avaliação do administrador. Ocupantes do poder têm recursos e estrutura a seu dispor invejáveis, particularmente propaganda. Há uma assimetria muito grande entre o detentor do poder e os demais postulantes. Isto beneficiou enormemente Fernando Henrique Cardoso na sua reeleição assim como hoje beneficia Lula. Faz pouco sentido hoje reclamar quando se foi beneficiado em tempo anterior e se ficou em silêncio, colhendo os frutos. Este é o problema, de muito difícil resolução. Aparentemente, a solução passa pelo fim dela.

 Naqueles trabalhos, chegamos a definir quantitativamente parâmetros que parecem, enquanto regra geral, estar sendo confirmados em cada eleição. Para um prefeito se reeleger, arredondando, é preciso que sua avaliação tenha pelo menos 40% de avaliação positiva (conceitos ótimo e bom) e tenha menos de 25% de avaliação negativa (conceitos ruim e péssimo).

 O conceito regular, em última instância, em momentos de decisão, como as eleições, apesar do esforço de alguns de desdobrá-lo em regular-mais e regular-menos além do regular-regular, tende a assumir sinal negativo. Quando o regular assume sinal positivo é porque a escolha estará entre um regular e outro ruim, ou seja, uma situação de falta de opção, rara na percepção do eleitor, sobretudo se entre os postulantes há alguém novo na política com trajetória positiva em outros campos da atividade humana. Obviamente, isto não equivale dizer que todas as avaliações positivas serão compulsoriamente convertidas em votos  para o detentor do poder executivo e nem que todas as regulares e negativas não serão. Contudo, o somatório de votos tende a se aproximar do percentual de avaliações positivas. Como se ponderou acima, é possível que alguém avalie ruim uma administração e as opções lhe pareçam piores. Da mesma forma, alguém pode avaliar boa uma administração mas ter a convicção de que o outro será melhor.

Mantendo-se válidos os parâmetros acima apontados, a perspectiva de cada governador postulante à reeleição bem como do presidente pode ser antevista na avaliação de sua administração. Isto posto, hoje, o somatório das avaliações positivas e negativas credenciam Lula à reeleição. Observe-se que esses parâmetros, resultantes de pesquisas empíricas, tomam como referência a administração, no caso, municipal. É possível, e isto demandaria novo estudo, que se faça necessário considerar, na presente situação, a avaliação individual do presidente e dos governadores candidatos à reeleição, uma vez que essa avaliação não necessariamente acompanha à da administração. No caso específico de Lula, seu desempenho pessoal é superior à da sua administração.  

Em 1º de outubro, daqui a menos de dois meses, saberemos os resultados. Enquanto isso, teremos as campanhas iniciando na televisão e as estratégias de cada candidatura em ação, se digladiando, buscando persuadir e conquistar o eleitor. E para concluir, Tocqueville continua atual e nos faz pensar.

 

Itabuna, 12 de agosto de 2006.

 
[1] Sociólogo, professor da Uesc, Sócio-Estatística e Instituto Gasparetto de Pesquisas.

[2] GASPARETTO, A. “Administração Pública e Reeleição.  Revista SBPM - Sociedade Brasileira de Pesquisa de Mercado. Ano II, nº 10 , Dezembro de 1999. São Paulo, SP e “Retomando a questão da reeleição.  Revista SBPM - Sociedade Brasileira de Pesquisa de Mercado. Ano II, nº 12 , Novembro de 2000. São Paulo, SP. Estes trabalhos estão disponíveis também na página www.sócio-estatística.com.br